Carta de Tiago – parte2

Introdução

Marcus Antonius, um famoso estadista romano entre 83 a 30a.C. Um apoiante de Júlio Cesar, e provavelmente um dos três governantes do império, era um grande orador, capaz de influenciar as massas como nenhum outro homem dos seus dias. Não era apenas um orador carismático, era também um general astuto e um brilhante pensador. Ainda assim as suas capacidades militares e intelectuais não eram suficientes para conquistar a sua fraqueza moral. Foi mesmo descrito por um historiador como “uma criança colossal, capaz de conquistar o mundo, mas incapaz de resistir a uma tentação.”

Esta descrição pode ser feita ainda hoje a muitos “Marcus Antonius”.
Muitos cristãos, estão hoje cheios de educação, conhecimento bíblico, exemplos inspiradores de sucesso moral, e avisos acerca dos falhanços morais. Ainda assim, muitos cristão são levados pela tentação, sofrendo gravemente por isso no trabalho, na igreja e em casa.

A Tentação não conhece limites. Não respeita títulos. Não reconhece favoritismos. Ignora todos os obstáculos humanos.

A tentação tem inúmeras faces, roubar, mentir, murmurar, enganar, invejar, lutar por popularidade, ambicionar poder, a lista é interminável.

Definição de Tentação

A Tentação é uma solicitação para o mal. É um movimento interior que nos instiga a fazer o mal. Apetite desordenado, desejo violento.

Na secção anterior, Tiago lida com o tipo de provações da vida que testam a nossa resistência, a nossa capacidade de guardar a fé sob pressão extrema – Tg. 1:1-12.

Agora, Tiago explora o outro significado do termo peirasmos, “tentação”, um teste de resistência moral – Tg. 1:13-18. Em seis pequenos versículos, apresenta a verdade acerca das tentações de uma maneira simples.
Tiago não apenas apresenta alguns factos que descrevem a tentação – Tg. 1:13-16 – Tiago foca aquilo que determina a nossa vitória sobre a tentação – Tg. 1:17-18

Se o crente responde em fé e obediência à palavra de Deus, alcança vitória sobre as provações, sobre os testes. Se pelo contrário, duvida e desobedece à Palavra de Deus, é tentado a pecar.

Na I Carta aos Coríntios, Paulo deixa claro que: “Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar.”

Ninguém por mais espiritual que seja, consegue evitar a tentação. Nem mesmo Jesus, na Sua humanidade, evitou ser tentado (Mt. 4:1).

Tal como é comum o homem ser tentado, também é comum o homem culpar alguém, não tanto pela tentação, mas mais por ter sucumbido a ela. Desde o princípio que uma das características do pecado é passar a culpa a outro. Nós que somos pais, sabemos bem que os nossos filhos nasceram com essa inclinação. No Jardim do Eden quando Deus confrontou a Adão com o Seu pecado, Adão passou a culpa para a sua mulher, a mulher que Deus lhe havia dado. Quando Deus confronta Eva com o seu pecado, Eva passou a culpa para a serpente. Eva passa a culpa para o diabo, Adão passa a culpa para Deus.
Regra geral tomamos a atitude de Eva. Culpamos o diabo por todas as tentações que não vencemos.
Tiago vai opor-se veemente contra a atitude representada por Adão, ou seja, culpar a Deus por sermos tentados. Tiago diz: “Quando alguém for tentado, jamais deverá dizer: “Estou sendo tentado por Deus.” Tiago 1:13

O que Tiago está a querer dizer é que ao sermos tentados, não digamos a nós mesmos, como que para nos justificarmos, que é Deus que está trazer a tentação à nossa vida.

Tiago apresenta-nos quatro provas fortes de que Deus não é responsável pelas nossas tentações, muito menos responsável de nós sucumbirmos a elas. Tiago apresenta o seu argumento da seguinte forma:

A Natureza do mal – v. 13
A Natureza do homem – v. 14
A Natureza da luxúria – v. 15-16
A Natureza de Deus – v. 17

I- A Natureza do Mal

“Pois Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta.”

O primeiro aspecto importante é que “Deus não pode ser tentado”. Em Deus não há a capacidade, a possibilidade de Ele mesmo ser tentado. É o mesmo que dizer que Deus é invencível, que Deus não pode ser vencido pelo mal. Deus e o mal existem em realidades distintas que nunca se encontram. Deus não é vulnerável ao mal. Deus está apercebido do mal, mas o mal não lhe toca. Tal como um raio de sol não pode ser tocado pelas trevas. A Santidade de Deus é eterna e jamais se mistura com algo que seja impuro ou injusto. Habacuque dizia que: “Teus olhos são tão puros, que não suportam ver o mal; não podes tolerar a maldade.” Habacuque 1:13

Jesus, sendo Deus em forma humana, é descrito como: “santo, inculpável, puro, separado dos pecadores.” Hebreus 7:26

Este duplo sentido do termo que Tiago usa, quer para teste, quer para tentação, é visto na tentação a Jesus em Mateus 4. Se por um lado, na perspectiva do diabo, era uma tentação para levar Jesus a pecar, na perspectiva divina era um teste, em que Jesus iria passar com distinção.

Deus não tenta a ninguém, mas permite que passemos por tentações, não para levar-nos a pecar, mas para que possamos sair mais fortes, com uma fé mais fortalecida no meio da prova, diz-nos Tiago 1:2-4

II – A Natureza do Homem

Tg. 1:14
Cada um, porém, é tentado pela própria cobiça, sendo por esta arrastado e seduzido.

A segunda prova de que Deus não é o responsável pelas nossas tentações para pecar, é a nossa natureza, uma condição espiritual caída, susceptível à tentação.

Cada um”.

Esta expressão do v. 14, enfatiza a universalidade da tentação, onde ninguém está imune a ela. Todos os seres humanos são tentados, sem excepção. Mais uma vez, e tal como com as provações, não é uma questão de “se” seremos tentados, mas “quando” seremos tentados.

“Arrastado e seduzido”, estes termos descrevem diferentes aspectos do processo da tentação.
O primeiro termo, “arrastado”, significa “levado para longe” compelido por um desejo interior.
O segundo termo, “seduzido”, é usado como um termo de pesca, para se referir ao isco, que o seu propósito é atrair a presa da sua segurança, para a captura e morte. O isco é tão atractivo que é impossível ao peixe resistir e acaba sendo pescado. Da mesma forma, sucumbimos à tentação quando a nossa cobiça nos leva para longe de Deus e para perto do pecado. O pecado pode parecer atractivo e prazeroso, e normalmente o é, pelo menos por um curto espaço de tempo.

A tentação seduz-nos ao fazer crer que o mal é mais aliciante do que a justiça, que a falsidade é mais aliciante do que a verdade, que a imoralidade é mais aliciante do que a pureza moral, que as coisas do mundo são mais aliciantes do que as coisas de Deus. Esta é a razão porque não podemos culpar o diabo pelas nossas tentações, apenas temos que culpar a nossa natureza e a nossa cobiça, ou a nossa luxúria. O problema da tentação não tem a ver com um inimigo externo, tem tudo a ver com um inimigo interno. Nós mesmos.

Não, nós não somos tentados por Deus, nem sequer indirectamente, nós somos tentados, directamente pela nossa cobiça. A culpa é totalmente nossa.

Jesus deixou claro que: “Mas as coisas que saem da boca vêm do coração, e são essas que tornam o homem impuro. Pois do coração saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais, os roubos, os falsos testemunhos e as calúnias. Essas coisas tornam o homem impuro.” Mateus 15:18-20

Sabendo que os apóstolos não estariam imunes às tentações, Jesus ensina os seus discípulos como vencer essas mesmas tentações: “Vigiem e orem para que não caiam em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca”. Mateus 26:41

Como igreja Encontro Vida, o desafio nestes tempos difíceis que estamos a viver é: Vigiar e orar para que não caiemos em tentação.

III – A Natureza da Luxúria ou Cobiça

Tiago 1:15-16
“Então a cobiça, tendo engravidado, dá à luz o pecado; e o pecado, após ter-se consumado, gera a morte. Meus amados irmãos, não se deixem enganar.”

A terceira prova de que Deus não é a fonte das nossas tentações, é visto na natureza da luxúria ou da cobiça. Depois de identificar a luxúria com a natureza humana, Tiago apresenta-nos os seus aspectos práticos. Este é o ponto fulcral da tentação.

Tiago passa da analogia da pesca para a analogia do parto, para ilustrar a tentação. A luxúria é retratada como uma mãe concebendo e tendo um filho, que é o pecado, cujo destino final é a morte.

Tiago deixa claro que o pecado não é o resultado de actos isolados, mas sim o resultado de um processo específico.

Vejamos o processo da tentação:
1. Desejo
Este é um outro termo que pode ser usado em vez de “luxúria” ou “cobiça”, quer um quer outro termos, significam “desejos”. Desejos imoderados, incontrolados. Todos nós, antes da salvação éramos escravos dos nossos desejos: “Anteriormente, todos nós também vivíamos entre eles, satisfazendo as vontades da nossa carne, seguindo os seus desejos e pensamentos. Como os outros, éramos por natureza merecedores da ira.” Efésios 2:3

O mesmo encontramos em Ef. 4:17-19; I Ts. 4:5

Este desejo começa com uma emoção, algo que é ansiado, que se vai transformar num desejo imoderado e incontrolado. Este desejo desenvolve-se, aumenta, ao ponto de ter toda a nossa atenção. A luxúria ou cobiça que nos leva ao pecado opera desta maneira. Gera em nós um desejo desmedido por algo, que capta totalmente a nossa atenção.

2. Plano
Tal como o peixe que vai atrás do isco, o desejo de termos aquilo que queremos é tão forte, e porque captou totalmente a nossa atenção, não nos apercebemos dos perigos e riscos que corremos na tentativa de alcançar o que desejamos.

Tiago diz que: “a cobiça, tendo engravidado”. Este estágio da tentação envolve a criação de planos para o concretizar do nosso desejo. Isto envolve a nossa vontade, uma decisão consciente de alcançar a todo o custo o que desejamos. Esta é uma escolha nossa.

3. Desobediência
Se permitirmos que o processo avance, inevitavelmente iremos desobedecer a Deus, ou seja, a cobiça tendo engravidado, dá à luz o pecado.
O desejo leva ao engano, o engano leva à desobediência que é pecado.

Esta batalha deve ser travada na mente onde o pecado é concebido. Sim é verdade que podemos evitar muitas tentações, evitando alguns lugares ou situações. Mas se garantirmos que estamos expostos a coisas que alimentam as nossas emoções de forma correcta, mais fácil será vencer as tentações. Paulo vai ser claro quando diz na sua Carta aos Romanos: “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” Romanos 12:2

Se por um lado devemos evitar ter a forma do mundo, por outro devemos ficar expostos a tudo o que é: “verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor” Filipenses 4:8. Como será possível fazer isto, “como pode o jovem manter pura a sua conduta? Vivendo de acordo com a tua palavra. Eu te busco de todo o coração; não permitas que eu me desvie dos teus mandamentos. Guardei no coração a tua palavra para não pecar contra ti.” Salmos 119:9-11

Se o processo da tentação for completado, então o pecado é consumado. A consequência do pecado ser consumando é a morte. No dizer de Paulo: “o salário do pecado é a morte” Rm. 6:23. O pecado traz morte física, ao separar a alma do corpo. O pecado traz morte espiritual, ao separar a alma de Deus. O pecado traz morte eterna, ao separar a alma e o corpo, eternamente da presença de Deus.

Pela fé em Jesus Cristo, somos salvos da morte espiritual e da morte eterna.

O apelo veemente de Tiago a todos nós é: “Meus amados irmãos, não se deixem enganar.” Tiago 1:16. O que Tiago está a dizer é, não culpem os outros, as circunstâncias, o diabo, e muito menos a Deus, pelas vossas tentações e pecados. Quando como crentes vencemos as tentações podemos alegremente dizer com Paulo que “a nossa consciência dá testemunho de que nos temos conduzido no mundo, especialmente em nosso relacionamento com vocês, com santidade e sinceridade provenientes de Deus, não de acordo com a sabedoria do mundo, mas de acordo com a graça de Deus.” II Coríntios 1:12

IV – A Natureza de Deus

Tg. 1:17
“Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação.”

Mais uma vez, Tiago declara que Deus não é nem pode ser responsável pelas nossas tentações, como já o havia feito no v. 13, a Sua natureza é incompatível com a natureza do pecado. Porque Deus é totalmente santo e totalmente justo, não pode ter parte como o pecado, seja de maneira for.

O que vem de Deus não é pecado nem tentação. O que vem de Deus é “toda a boa dádiva e todo o dom perfeito”. A perfeição, a santidade e a bondade de Deus, fazem com que tudo o que Deus dá reflita o Seu perfeito carácter. Tiago está a dizer que, quer a tentação, quer a consumação do pecado, jamais podem vir de Deus. Pelo contrário, Deus só é responsável por toda a boa dádiva e por todo o dom perfeito, pelos quais podemos vencer as tentações.

“Pai das luzes” é um antigo título judaico dado a Deus, referindo-se a Ele como o Criador, como o dador da luz, na forma do sol, da lua e das estrelas. Diferentemente destas fontes de luz, que apesar de magníficas e esplêndidas, podem vir a desvanecer, o carácter de Deus, o Seu poder, a Sua sabedoria, o Seu amor, não mudam nem variam. João diz-nos que: “Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas.” I João 1:5

Jesus é claro ao afirmar que: “Se vocês, apesar de serem maus, sabem dar boas coisas aos seus filhos, quanto mais o Pai de vocês, que está nos céus, dará coisas boas aos que lhe pedirem!” Mateus 7:11
A melhor coisa que lhe podemos pedir, não são bens materiais, o melhor que lhe podemos pedir é a presença do Espírito Santo na nossa vida. “Se vocês, apesar de serem maus, sabem dar boas coisas aos seus filhos, quanto mais o Pai que está no céu dará o Espírito Santo a quem o pedir!” Lucas 11:13

Quando nós, como filhos de Deus, somos tão abundantes e continuamente regados com as bênçãos mais graciosas, valiosas que o nosso Pai celestial pode conceder, nada maligno, tentações ou pecado deveriam atrair-nos ao ponto de falharmos.

A natureza de Deus, é em si mesmo a fonte pela qual nós podemos vencer toda e qualquer tentação.

Conclusão


Quanto mais focados na Palavra de Deus estivermos, e mais permanentemente corrermos para o Alvo, menos hipóteses teremos de pecar.
Foca aquilo que determina a vitória:
Desenvolve um pensamento e geras uma acção. Desenvolve uma acção e geras um hábito. Desenvolve um hábito e geras carácter. Desenvolve um carácter e geras um destino.

Estas palavras reflectem o aviso de Tiago. Os pequenos pensamentos, as acções “as pequenas transgressões”, os inofensivos hábitos, podem tornar-se numa vida completamente fora do propósito de Deus.

Isto leva-nos à pergunta:

O que pode garantir a vitória sobre as tentações, mantendo-nos firmes na estrada da vitória que leva à vida abundante?

A vitória vem quando nos mantemos naquilo que é bom – v. 17
A vitória vem quando vivemos na verdade – Tg. 1:18

Que a nossa vida esteja cercada de toda a boa dádiva e dom perfeito que do Pai das luzes, vivendo sempre pela Palavra da Verdade. Sabendo que a melhor dádiva e dom perfeito é Cristo, e que a Palavra da Verdade é Cristo, se nos mantivermos ligados a Cristo, vivendo cada dia sendo mais parecidos com Cristo, certamente que iremos vencer as tentações que vierem à nossa vida.